Integrando a ExpoBiogás, que ocorreu simultaneamente à Ecomondo Brasil, entre os dias 21 e 23 de maio, o Seminário Técnico Abiogás foi realizado nesta quinta-feira (último dia de realização da exposição), com discussões que refletiram sobre a viabilidade, a geração do biogás ou biometano no Brasil e sua distribuição. Além disso, foram debatidas as possibilidades de substituição do diesel pelo combustível renovável e a expansão em larga escala do biogás.

Pela manhã, o presidente da Abiogás, Alessandro Gardemann, saudou os participantes, lembrando que, ainda que o Brasil tenha descoberto grandes jazidas de combustível fóssil (petróleo) com o pré-sal, existem enormes oportunidades para a expansão do mercado de biometano no país. “Precisamos mostrar que não temos medo de criar um mercado (de biogás) junto com o pré-sal. Temos que ressaltar os nossos diferenciais para a produção e utilização em todo país, criar um mercado e gerar tecnologia”, finalizou, na abertura do painel “Modelos de Negócio para a Geração Distribuída”.

Foto: Ivana Debertolis

O palestrante Cicero Bley, secretário executivo do Conselho Temático de Energia da Federação de Indústria do Paraná e proprietário da Startup Bley Energia Estratégias e Soluções, afirmou que o crescente interesse das organizações por uma energia considerada mais limpa e renovável traz muitas oportunidades para a expansão de toda a cadeia produtiva do biogás. “Além disso, há o interesse do Governo Federal pelo fim do monopólio do gás natural (em mãos da Petrobras) aqui no Brasil, com esse preço exorbitante”, pontuou. “Saber quais são as empresas que participam de todas as etapas até chegar ao consumidor final é de suma importância e é o objetivo destes seminários”, refletiu, se referindo às discussões promovidas nos debates da Abiogás.

A Aperam, empresa que produz aços para a cadeia do biogás do grupo Arcelor Mittal, uma das patrocinadoras do seminário, celebrou a realização de um evento deste porte no Brasil. “É fundamental que tenha esse tipo de discussão por ter um público misto: temos estudantes, empresários, investidores, fabricantes, produtores que integram toda uma cadeia de interesse”, comentou Cassio Zampol, responsável pela área de Desenvolvimento de Negócios da companhia. “Queremos iniciar parcerias, ver como a empresa pode contribuir na parte técnica para as empresas interessadas na produção de biometano e, como consequência, fechar negócios.”

As empresas convidadas Lonjas, Asja e o Instituto Totum debateram as barreiras e as perspectivas para o mercado de distribuição do combustível renovável no país. “Na boa gestão ambiental as companhias reduzem os custos e criam uma boa imagem corporativa, já que associam seus nomes à produção de energia considerada limpa”, afirmou Manuel Florez Sarmiento, da Lonjas.

Milena Uchida, da Asja, especializada em projetos e plantas de produção de biogás para a geração de eletricidade a partir de aterros sanitários, lembrou que tais aterros municipais são uma excelente oportunidade para a produção do biogás. “Mas ainda temos um universo de mais de 3.000 municípios no país utilizando lixões a céu aberto”, destacou. Ou seja, o país ainda necessita equacionar a questão do tratamento dado aos resíduos sólidos urbanos, para ampliar a capacidade de produção de biogás, além de prover maior conexão para as plantas produtoras ao sistema de distribuição de energia elétrica.

Foto: Ivana Debertolis

Já o representante do Instituto Totum, Fernando Lopes, destacou a importância e a possibilidade de comercialização, pelas empresas que investirem na geração de eletricidade a partir do biogás, dos certificados renováveis, que comprovam que as empresas consumidoras estão utilizando energia igualmente renovável.

 

Substituição do diesel pelo biogás

Na parte da tarde, no painel “Modelos de Negócio para a Substituição do Diesel pelo Biogás”, o presidente da CIBiogás, Rodrigo Regis, lembrou como a disseminação da produção do combustível no país poderia afetar positivamente a balança comercial, uma vez que o Brasil importa enormes quantidades de derivados de petróleo, como o diesel.

“Além disso, poderíamos, o que eu digo que é a cereja do bolo, diminuir nossa dependência na importação de fertilizantes.” Regis lembrou que a produção de biogás, ao final da cadeia, pode ainda gerar a produção deste tipo de insumo.

O representante da Convergas, André Bermudo, contou a trajetória de sua empresa, que começou com a conversão dos motores de automóveis, notadamente táxis, para a utilização de GNV. Atualmente, após a efetivação de uma joint-venture com a norte-americana Agility, a empresa é das principais produtoras de tubos para a aplicação do biogás em caminhões e ônibus, além de outras aplicações.

Artur Milanez, do BNDES, reforçou que o banco de desenvolvimento está interessado na concessão de linhas de crédito para o setor de energias renováveis, como a do biometano. “Mas lembro que a procura é grande, e essas linhas, que têm seu limite de valor, desaparecem rapidamente”, afirmou.

 

Expansão

O último painel do Seminário Técnico ABiogás reuniu representantes das empresas Cegás, Ecometano, Cocal e Evonik e apresentaram suas propostas para expandir a geração de biometano no país.

Hugo Santana de Figueirêdo Jr., diretor presidente da Cegás, mostrou como a parceria público-privada possibilitou que a cidade de Fortaleza se tornasse a primeira a produzir gás natural renovável a partir de aterro sanitário que culmina na distribuição de energia elétrica. “Atualmente, a Cegás recebe 75.000 m³/dia de GNR, o que permite a redução de 610.000 toneladas equivalentes de CO2 por ano, além de oferecer aos seus clientes um produto renovável (residenciais, comerciais, industriais, automotivos)”, destacou.

O controller da Cocal, André Gustavo Alves da Silva, apresentou o projeto da unidade de Narandiba, em São Paulo, que em parceria com a Neo Energética e a Gás Brasiliano, está produzindo uma planta de biodigestão, a ser inaugurada em agosto de 2020. O biogás produzido será destinado para a Gás Brasiliano, responsável pela distribuição do Gás Natural canalizado na região Noroeste do Estado de São Paulo, para a Geração Distribuída (GD) e para o consumo interno da Cocal, que usará para abastecimento de sua frota de mais de 700 veículos, entre caminhões, tratores, colhedoras e moto-bombas.

Camila Farias, da Evonik, falou sobre todas as soluções disponibilizadas pela sua empresa, que foi uma das parceiras da Cegás. “Os tubos em Poliamida 12 para distribuição de biometano não têm a necessidade de adequação de equipamentos, já que usam os mesmos equipamentos do sistema de Polietileno. Eles reduzem em 31% os custos de instalação na comparação com aço carbono e são mais produtivos porque são 1.8 mais rápidos.”

Luciano Vilas Boas, da Ecometano, que conta com dois aterros sanitários, no Ceará e no Rio de Janeiro, falou sobre a comercialização do biogás, seus obstáculos, consequências e vantagens. “Quanto maior a distância de gasodutos e do litoral brasileiro, maior é a vantagem competitiva do biometano, dados os custos de carregamento por carretas.”

Imagem: Ivana Debertolis